Não escrevo crônicas. Não as sei. Escrevo poesia. Não literal. Poesia do viver. Poesia no observar do correr dos dias, com suas mazelas e belezas. Hoje mesmo, de súbito, me atentei ao andarilho que por mim passou - e que passara tantos dias e nunca o havia percebido, ao menos com humanidade - encaminhou-se à casa de uma vizinha pra pedir uns trocados (para comida, para o mal moderno?), deduzo! (Por um tempo ele morou em outra casa vizinha, bem aqui ao lado da minha, uma casa em construção, dormia num sofá fétido, só que sua estadia foi interrompida pela construção de um muro ao redor da casa, justamente com a intenção de afastá-lo, e hoje enquanto pedia uns trocados, que pra quê não tenho certeza, disse, cê viu, me tiraram o lar?!). Aquela casa em construção era seu lar, sem o ser. Fora despejado sem ofício. Só porque - oficializado - não era seu lar. Mesmo que sentisse já dono daquele querer. E saiu pela rua. Num diálogo íntimo. Não maldisse a roupa suja. O mau cheiro. A ironia da vida. Os sonhos desfeitos. Os desejos freados pela falta de humanidade. (minha e do entorno) Nem a miséria de gorjeta que recebera. (cinquenta centavos) Apenas se ressentia do que lhe foi tirado. Seu lar idealizado nas noites em que a realidade se distrai e nos deixa sonhar.