Tenho tanta coisa por dizer, mas nenhuma mais urgente que a necessidade de que compreenda somente no olhar as frases das quais não posso dispor, pelo simples fato de que talvez meus olhos estejam demasiadamente tendenciosos pela imagem que em rompantes lilases me dizem que vejo o que vejo desse nosso amor silencioso. Tudo está desconcertado diante do seu eterno sorriso largo, que sorrateiro me detém na caminhada. Queria transpor meu olhar em fala para que pudesse preguiçosamente revelar o sentimento incógnito que em surdina me dilacera pouco a pouco através de seu mísero redor, que por tantas vezes me sufoca pelo ar rarefeito que possui. É significante essa sua cor de bronze ora desbotada ora translúcida, que naquele banho ao cair da tarde marcou de angústia meu viver. Hoje posso enfim me revelar, sobre você, as minúcias do nosso adeus. Hoje posso enfim retroceder àquela escada repleta de amargura do lembrar, caminhar por entre os cômodos, moveis, e antigo contentamento, todos paralisados numa distância que me revela que sua respiração ficou perdida lá, naquele instante. Se pudesse teria segurado esse instante entre os dedos e guardado-o em meu baú da eternidade. Poderia nesse ou em qualquer momento revivê-lo sem magoas, sem rancores, só leveza e certeza. Mas o tempo nos toma como préstimo o que nos fora iluminação. Quem sabe, ele, um dia me devolva esse seus olhos que carrego no bolso direito de minha calça verde.
ORGULHOS
Há 15 horas
