terça-feira, 24 de outubro de 2017

Deixar ( 20/09/2017)
Ontem foi inverno em minha retina
Dia interminável sorrateiro
Enquanto lambia o tempo
O cigarro aquecia a sina.

Na pia lotada do ontem
Passava um café íntimo de recordações
Fumava mais
Vivia menos.

A racionalidade retocada pela emoção
O brinde insano às realidades inventadas
Os gestos perdidos numa esquina qualquer
Entregues com desdém ao cuidado do tempo.

Nem o bem
Nem o mal
Nos aproxima
Somos filhos da distância.

Mas já é verão...

Na pia vazia de agora
Teço nova rotina
Fumo menos
Vivo mais.          
               
A emoção soterrada pela racionalidade
Num brinde ao inesperado
Num caminhar lento compensado
Contemplando a cidade.

O sentimento morreu lentamente
Numa morte tardia deveras
Outro sentir rompeu violentamente
Numa vida tardia deveras.

E hoje enquanto me encontro com a poesia

O amor me perde. 

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Sobre as horas.

Crio uma crônica pura. Sou Deus. Elejo pilares.
Teço a criação sem muita ponderação e transpiração, num puro passionalismo.
O passado não pondera. O futuro não passa pela retina.
Ambos são indomáveis. Se no outro há melancolia, nesse há esperança.
Não me diga acerca do esperar. Nada espero. Tudo espero. Respiro os sentires todos.
O advir há de vir. Mutável. Divino. Vanguarda. Porque há o hiato inominável harmonizando pontes.
Afinal, não há pureza. O mundo é lama.
Mas não se engane. Não falo da noite. Tampouco do dia. Apenas sinto " a hora perigosa".
E ela passa todos os dias. Como uma crônica envelhecida pelo agora. 

quinta-feira, 6 de março de 2014

Eu e as cidades.

A paixão me arrebata pelos gestos. Nada contra corpos. Nada contra genialidade. Mas o que me fascina são os gestos. A delicadeza de compreender o outro pelo toque. A sutileza de ler no outro através do tato. Outro dia me disseram que me apaixono pelas cidades pequenas. Que as visito e logo parto. A paixão pelas pequenas cidades nascem do eterno desejo de partir. Levo-as apenas na memória – quando valeram a pena serem visitadas – porque aprendi a desfrutá-las pelo retrovisor. O olhar não se demora na paisagem. O olfato não se prende na ilusão. O desejo de partir é sempre maior que o desejo de desvendar. O desnudar da rotina não me apraz. Só o gesto me comove. Os gestos falam das paixões em mim. Nesse dia, quando me disseram das cidades- percebi: há cidades pequenas que por um momento foram metrópoles, só faltaram os gestos.  



Imagem: http://www.panoramio.com/photo/18830438



domingo, 3 de novembro de 2013

As preposições essenciais em mim.



Referir-se à paixão é fácil, antes é preciso amar a si mesmo, após, deixe que o vento leve as lembranças indesejáveis, até que se esvaia como líquido indigesto, dispensável, e com zelo, pense nos passos que seguem, contra isso: amnésia; de agora em diante e perante seja reflexo do que se anuncia. Desde que soterre tais memórias, entre hiatos aparentemente banais, o divino. Para ser feliz é preciso pouco. Uma antítese em harmonia, com e sem. Sei sobre a biografia lírica dos instantes raros, ela revela um eu arranhado, curado, limpo. Compreenda: sob o céu há mais que intolerância e incompreensão; Há mais que uno. Ah, faltou o trás? É que já ficou pelo caminho.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

As máscaras...

Quando me olho no espelho não vejo o que fui fisicamente. Não consigo, e nem tenho fotos pra recordar de como eu era, pois todas elas foram devidamente descartadas. Só noto à distância o sentir daqueles instantes. Queria poder voltar àquele tempo em que a inocência ainda estava pregada à minha alma como natural. Dar de cara novamente com um redor sem desconfianças. Do hoje é contrário, como se a cada momento fosse subtrair o que pertence a outros. Muitos se esquecem de que o vazio é a presença do nada.Eu disse: nada! Espelhos, por favor!!! Por vezes ainda teimo. Em vão. Há desilusões. Há insegurança. Há tristeza. Todas persistentes num canto da memória. Quando nasci li num letreiro divino: seja bem-vindo a esse mundo insano, desconfiado, e injusto. E se há beleza logo a destroem. Dirão: nosso que pessimismo. Nada disso: realidade, meus amigos. Sirvam-se do banquete farto da maldade e da maledicência humana. Elas vive. Minha inocência, jaz. 

sábado, 14 de janeiro de 2012

São

Ah, o tempo!
Doce certeza de que tudo passa.
E passará?
Ah, doce solidão das horas incertas!
Caminharemos?
Oh, amarga dúvida.
A cicatriz na pele do tempo.
Somos um, eu e você, nesse universo.
Doce saudade. 

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Tudo de novo.

Nesse ano, eu e a vida, conduzimo-nos com esmero como quem busca lapidar algo primordial. Tantos instantes lindos cruciais. Se bem que houve momentos que lágrimas foram necessárias, uma vez ao menos copiosamente do que é dor; noutras verteram-se do que é saudade, do que é esperança, do que é fraterno. Poderia dizer que foi atípico, mas não, já os tive em demasia parecidos, nunca iguais. As experiências nele vividas se somaram a uma densa ânsia do viver que carrego desde muito tempo. Os encontros foram raros e agora se somam a tantos outros deixados no rastro do lembrar. Não nego: foi mágico. Novas nuances. Novos tons. Novas saudades.  Teria inúmeros adjetivos para descrevê-lo, mas como dizê-lo sem que eu cometa injustiça vil. A velha poesia íntima que trago n alma me acalentou nos momentos que pressenti não poder suportar a insanidade que é viver, com suas injustiças (sim, o mundo é injusto eu sei!), suas dores (projeções; ilusões; desejos inúteis; olhares, gestos, e palavras que ferem, quase sangram.), sua falsidade (somos caçados por maledicentes a todo instante). Mesmo assim, no contrário, tenho outras certezas, nunca definitivas, se não relativas: foi bom viver. E nisso deposito toda minha fé. Nem todo um redor é feito assim de gris. O meu redor foi multicolorido. Mesmo caminhando depressa para que os ponteiros não percebessem meu cansaço soube tirar desse tempo muita alegria (aqui que se leia: com a ajuda inconsciente dos amigos). Enquanto pessoas nos afastam da eterna busca da felicidade (efemeridade eu sei, mas ainda sonho), outras caminham a nosso lado fazendo valer à pena tal procura. Muitas vezes me trouxeram encantamento onde só havia desilusão. Sem que soubessem disso. E se sangrei. Já se converteu em rios de esquecimento. Hoje sei. A amizade é mais. O respeito é mais. A alegria é mais. O amor é mais. E não menos é a saudade.